Carta da Presidente

A convicção da necessidade de uma ação urgente é fruto de uma experiência de observação sensível. Não há outro caminho. De alguma forma, no conforto dos nossos lares urbanos, no conforto dos nossos carros climatizados, o mundo à nossa volta é apenas uma paisagem que, quando verde, chamamos de “natureza”.

 

No entanto, não é bem assim. Quando, por algum motivo, decidimos mudar de universo e passamos a conviver quotidianamente com essa “natureza”, os sustos se sucedem, uns após os outros. O primeiro deles é o silêncio. Por que os pássaros não cantam mais? Cadê a orquestra de sapos e rãs que embalava as noites? O segundo susto é o calor. Se debaixo de uma árvore encontramos uma temperatura adequada, nos pastos é o exato oposto: um inferno de calor em qualquer estação do ano. Então, nos damos conta de que, por falta de sombra, não há animais lá. A paisagem verde que chamávamos de “natureza” ganha outra dimensão. Uma percepção mais aguçada sentirá, na pele, a sede da terra, o inferno que séculos de exploração criou para todas as espécies, inclusive a nossa.

 

Se quisermos ir um pouco além e visitar a história dos ciclos, aí a compreensão será mais clara: uma história de exploração! A mata que recobria toda essa superfície foi retirada sem dó nem piedade, em poucos, pouquíssimos anos. Espécies seculares deram lugar ao plantio do café, plantado em sulcos verticais, o que gerou um processo de erosão imediato. O ciclo foi curto, durou sessenta anos. Alavancado pelo Estado, fez a fortuna de alguns e a devastação de um universo. Terminado, as imensas superfícies erodidas e cansadas foram vendidas em grupo para a cultura da pecuária extensiva. Por anos e anos, esse ciclo retirou sem devolver. Pior, para “corrigir” a pobreza, introduziu vegetações estrangeiras nas pastagens que impermeabilizaram a terra, tornando-a ainda mais seca.

 

E então, voltamos à paisagem verde, que vemos da janela do carro. Aquela, que chamávamos de natureza. E nos damos conta, da forma mais contundente de todas, que é preciso agir, que é urgente agir. Mas agir implica em muitas questões: como? O que plantar? Onde? De que maneira? De baixo para cima? De cima para baixo? Quanto custa?

 

Primeiro impacto: plantar custa caro. Mudas custam caro. Então, vamos ao plano B: na restrição, a solução. O que temos em casa? Vem o tempo dos estudos, das leituras, das expedições nas pequenas áreas remanescentes com mateiros para tentar identificar algumas poucas espécies, questões nem sempre respondidas. A mata que julgávamos rica é, na realidade, um cafezal abandonado onde nasceram algumas árvores, sempre as mesmas. Não há diversidade nem frutas para os pássaros! Da triste realidade, vem a compreensão de que se trata de um estudo sem fim; de que a ideia de refazer algo próximo da complexidade da floresta original requer mais conhecimento, mais pesquisas, mais observações, mais trabalho de campo. É um ciclo. Mais aprendemos, mais temos a aprender. A essa altura, já compreendi que posso começar um horto com minhas próprias mudas nativas, nascidas aqui, adaptadas a esse ecossistema. Vamos a ele! Afinal, temos raridades, um jequitibá, um pé de jabuticaba branca – espécie quase extinta ! – grumixamas, abiu… Nos pastos restaram algumas pioneiras. O banco de sementes da terra faz sua parte, nos traz presentes: monjoleiros, jacarandás bicos de pato, embaúbas, guapuruvus. Vem a ideia de criar roçados seletivos para podermos ver essas mudas espontâneas trazerem sombra.  E nosso antigo Mulungu, pioneira gigante, nos ajuda com dezenas de filhotes.

 

É aí que uma grande amiga, de olhar atento e sensível, traz seu apoio de maneira informal e incondicional e me sugere criar uma entidade jurídica que me permita ampliar o processo. A ideia me parece incrível. Será a primeira sócia. Começa a surgir um projeto, estruturado. Porém, precisamos de mais ajuda, técnica e apaixonada, alguém disposto a se entregar às pesquisas de campo, plantios, manejos de horto, inventário de espécies… E chega a sobrinha, bióloga, que voa para dentro.

Ao final, somos três pessoas completamente integradas a uma missão: devolver à natureza o que lhe foi tirado.

 

E elegemos como símbolo uma espécie pioneira que, de tanta alma, sobrevive às piores degradações, a Erythrina Mulungu.

 

Ah, para quem não sabe, em diversas culturas africanas, Mulungu é o nome de Deus.

 

Marisa Guaranys