Nossa Atuação
O Instituto Mulungu segue um caminho distinto do replantio convencional em larga escala.
No Sítio São Pedro, a restauração ocorre a partir da observação minuciosa e da adaptação local: o terreno é dividido em pequenas células, cada uma tratada conforme suas condições ecológicas específicas. O horto cresce de forma orgânica, incorporando novas espécies nativas e ampliando a diversidade genética. Práticas como o roçado seletivo e o plantio de espécies frutíferas favorecem a regeneração espontânea, o retorno da fauna e a criação de corredores ecológicos. Cada ação é planejada, testada e avaliada, com base em um inventário detalhado do ponto de partida — porque restaurar a floresta é um trabalho de precisão, paciência e escuta da terra.
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Talvez a melhor forma de definir o que estamos fazendo seja descrever o que não estamos fazendo: seguir os padrões convencionais de replantio em larga escala.
Na realidade, grande parte das ações de replantio com o objetivo de restauração ecológica acontecem em poucos dias, segundo uma receita standard: plantam-se mudas de diferentes grupos sucessionais ao mesmo tempo, acreditando-se que as espécies pioneiras crescerão mais rapidamente e trarão a sombra de que necessitam as espécies secundárias e clímax para seu desenvolvimento.
Tal sistema tem sua vantagem: permite a cobertura de áreas muito extensas com relativa rapidez. Mas tem também sua desvantagem: qual a taxa de resultado? É certo que uma espécie pioneira crescerá mais rapidamente do que uma espécie clímax, que não tolera a luz solar, como o jequitibá-rosa, por exemplo, mas será rápido o suficiente para que não se perca a muda?
Não temos essa resposta e, de qualquer forma, não é o caminho que escolhemos.
Do nosso ponto de vista – e é o que estamos realizando no Sítio São Pedro -, não seria possível um trabalho com resultados sem a observação do detalhe, assim, grandes áreas foram divididas em pequenas células, as quais abrigam diversos ecossistemas (um exemplo disso é a nossa célula 1, de aproximadamente apenas 1.500 m², que abriga quatro situações distintas!)
A divisão em células nos permite trabalhar com foco, adaptando o plantio a cada situação que se apresenta, além de possibilitar o controle de resultados. É o nosso lado “laboratorial”.
Em paralelo, seguimos cultivando em nosso horto as mesmas espécies de 2024, porém acrescentamos diversas espécies novas, com vistas a trazer enriquecimento, inclusive do ponto de vista genético. O horto cresce de forma orgânica.
Aliás, um ponto importante é a escolha das espécies. Em 2025, iniciamos expedições em resíduos de florestas do entorno com o objetivo de localizar e compreender respostas diferentes aos impactos dos ciclos.
Outra ação incontornável, no sentido de acolher o esforço de restauração do próprio ambiente, é o “roçado seletivo”. Se por um lado, tal prática nos ajuda a combater a invasão de vegetação exótica extremamente agressiva, notadamente nas áreas de pastagens, por outro, ajuda-nos a fortalecer um esforço de restauração espontâneo do próprio ecossistema, a partir do qual poderemos criar diversidade por meio de ações de plantio direcionadas.
A ênfase na inserção de espécies frutíferas (pitangueiras, jabuticabeiras, grumixamas, gravatás, jerivás…) nas beiras das matas e ilhas de vegetação em pastagens nos ajuda não apenas a alimentar a avifauna, mas também a criar corredores aéreos, de forma a expandir a possibilidade de dispersão de sementes.
Assim, ao contrário de um esforço de restauração padronizado e em escala, optamos por um trabalho totalmente “artesanal “, baseado na observação, na compreensão e em um questionamento permanente que nos permita ter um controle total das espécies inseridas em cada ecossistema, avaliar e regular cada ação de forma a ter um resultado compatível com nossas expectativas.
Por fim, é extremamente importante em um projeto de restauração ecológica a prospecção e o inventário do ponto de partida. Parece-nos, aliás, a informação mais importante de todas: aquela que nos permite mensurar resultados e avaliar os caminhos escolhidos.